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Uso de animais em atividades comerciais: grave e comprometedor à saúde e bem-estar deles

Uso de animais em atividades comerciais: grave e comprometedor à saúde e bem-estar deles
07/04/2016 danilofonsecaa

Por trás de um filhote fofo à venda, pode estar uma prática desumana que obriga fêmeas a ininterruptas gestações durante sua vida reprodutiva. Matrizes (fêmeas) e padreadores (machos) são animais mantidos por criadores com a finalidade de reprodução constante e periódica de filhotes, especialmente os de raça. 
Como têm a finalidade de gerar lucro, muitas vezes são tratados de forma industrial em condições físicas e emocionais muito aquém do que se espera para um ser vivo.
A Médica Veterinária Ceres Faraco, integrante da Comissão da Ética, Bioética e Bem-Estar Animal do Conselho Federal de Medicina Veterinária [CFMV], concedeu uma entrevista para a Revista A Tribuna sobre o assunto, chamando atenção para um problema que, não raro, está por trás do bichinho fofo à venda em uma vitrine de pet shop.
Investigar de onde vem e quem são os pais desse animal pode ser o primeiro passo para acabar com essa prática desumana. Acompanhe a entrevista!

Como se deve encarar, do ponto de vista ético, a vida de um animal doméstico?

Como uma importante responsabilidade que se assume junto à eles. à nossa família e à nossa sociedade. Os animais são seres sencientes, ou seja, sofrem, sentem prazer e felicidade. Têm necessidades biológicas que incluem questões físicas, como provimento de alimento, água e abrigo, entre outras.
Além dessas, têm necessidades mentais de presença de outros companheiros ou de atividades de ter uma vida enriquecida de experiências que permitam expressar seus comportamentos normais.
Precisam de um ambiente controlado e previsível e sistemas de segurança e de bem-estar. E temos de entender que o direito dos animais à vida e ao bom viver é tão genuíno como o nosso.

O que são matrizes e como elas são tratadas?

O uso de animais em atividades comerciais pode ser algo muito grave e comprometedor ao bem-estar deles. Os cães e os gatos em sistemas de criação que visam a reprodução constante e periódica de filhos são mantidos de forma industrial, unicamente com a finalidade de gerar lucros pela venda dos filhotes.
Em geral, as matrizes e padreadores (animais reprodutores) ficam sem provimento das condições básicas mínimas para a sua vida, como acesso a alimento em quantidade e com valor nutricional de acordo com idade, porte, sexo e condição física, espaço adequado para movimentação, condições ideais de temperatura, luz e ventilação e possibilidade de interação com outros indivíduos.
Esses animais, em muitos casos, também não têm interação positiva com humanos que os tratam como máquinas para procriação.

O que a pessoa que paga para ter um animal precisa saber?

A cada animal comprado de criadores inescrupulosos, ocorre um incentivo à manutenção de produção cruel industrial e comercial. Embora muitas vezes a venda seja feita em um ambiente com aspecto correto, cumprindo princípios legais do comércio e criação, bem como de exposição à venda, a finalidade em si pode esconder um sistema condenável.
É importante que as pessoas conheçam o local de criação, os pais do animal, verifiquem se de fato eles são criados de forma correta, quais os procedimentos de saúde que já foram adotados – vacinas, desverminação, tratamentos específicos e visitas ao médico veterinário. É importante ter tudo por escrito e referenciado.

Como fica uma matriz no final de sua vida reprodutiva?

As fêmeas, muitas vezes, acabam desgastadas e debilitadas devido às repetidas e ininterruptas gestações. Isso porque são utilizadas na reprodução até a idade madura – que varia de acordo com a raça. 
Nos cães de grande raça e gigantes portes que, em geral, vivem menos, a vida reprodutiva também termina mais precocemente. Entretanto, pelas características da espécie, com dois cios ao ano e gestação de cerca de 60 dias, o período de descanso entre as gravidezes é curso – de 60 a 80 dias apenas -, muito pouco para a recuperação correta do animal.
Nas raças menores, a cobertura e a gestação são constantes e podem se prolongar por um período variável. Em média, nesses criadores, as fêmeas iniciam sua vida reprodutiva entre o primeiro e o segundo ano de vida e elas assim se mantêm até 8, 10 anos de idade. 
Há criadores mais inescrupulosos, que induzem, com o uso de hormônios específicos, o aparecimento de cios nos animais conforme sua convivência mercadológica.

Ouve-se dizer que a matriz que já não reproduz acaba sendo descartada. É isso mesmo que acontece?

A reprodução indiscriminada compromete muito o estado geral dos animais e traz consequências graves a médio e longo prazo para as fêmeas caninas e felinas, como a ocorrência de quadros infecciosas no aparelho reprodutivo, tumores como os de mama, etc.
O destino desses animais, muitas vezes, muita vezes, é o abandono. Alguns são encaminhados à adoção sem qualquer critério de triagem e acompanhamento posterior ou mesmo abandonados em via pública. Não podemos esquecer que a eutanásia é uma opção adotada para o descarte.

Essa exploração também acontece com os machos?

Sim, mas de forma diferente, pois os machos apenas servem como padreadores, podem receber fêmeas de outros canis e gatis para reprodução ou serem emprestados temporariamente. Cruzam não apenas naturalmente, e são obrigados a cobrir muitas fêmeas em curtos períodos.
A consequência é que passam a apresentar problemas comportamentais, ligados ao estabelecimento de vínculo, e vivem em conflito de entendimento de seu ambiente natural.

Adotar apenas vira-latas ou cães abandonados seria a solução para esse problema da exploração da matizes?

Na verdade, isso gera vários pontos de consideração, pois a curto e médio prazo teremos também os animais gerados nos canis e gatis de criação comercial que necessitam, assim como os de raça definida de um lar, uma família, etc. 
Por outro lado, existem milhares de cães e gatos sem proprietários em abrigos municipais em ONGs que precisam de lares responsáveis. Tudo isso gera um conflito em que não existe uma única possibilidade, portanto a disponibilização destas informações para a comunidade sobre a realidade é fundamental para mudar a situação.

O que dizer para a pessoa que insiste e prefere ter um cão de raça?

Na verdade, ela precisa entender todo o processo, a realidade, para poder escolher com responsabilidade. É importante a consulta prévia com veterinários clínicos e profissionais dos serviços de controle animal, abrigos, e refletir se de fato o que ela quer é um filhote de raça definida ou um companheiro que enriqueça seu dia, sua vida.
Talvez esse animal nem precise ser tão jovem, mas talvez um já adulto, que tenha definido sua características físicas, comportamentais e mentais. É preciso entender que, em qualquer situação, seja adoção ou compra, os cães e gatos são seres sencientes que têm necessidades a serem atendidas. 
 
Ceres Berger Faraco, diretora acadêmica e científica do Psicologia Animal, é graduada em Medicina Veterinária, especialista em Toxicologia,  mestre e doutora em Psicologia com período de pesquisa na Universidade de Valência, na Espanha. Atualmente é coordenadora e professora do Curso de Especialização em Comportamento Animal da Unifeob (SP) e professora do Curso de Veterinária do  Centro Universitário Ritter dos Reis, UniRitter. Em clínica, trata de distúrbios comportamentais dos cães e gatos, sempre na busca por oferecer a melhor qualidade de vida possível. Ceres é ainda presidente da Associação Latino-Americana de Zoo-Psiquiatria (AVLZ) e vice-presidente da Associação Médico Veterinária Brasileira de Bem-Estar Animal (AMVEBBEA). Ceres é figura atuante em palestras pelo Brasil e pelo mundo.
 
O Psicologia Animal, criado em 2009, é um instituto voltado para o bem-estar e, em especial, o comportamento animal. Acesse nosso blog e confira orientações importantes para o bem-estar e a saúde de cães e gatos.

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